domingo, 28 de novembro de 2010

PREFÁCIO A “AOS OMBROS DE GIGANTES”


MeupPrefácio ao livro "Aos Ombros de Gigantes" (Texto Editores, textos clássicos da ciência escolhidos e comentados por Stephen Hawking), que já se encontra nas livrarias:


Foi o grande físico inglês Isaac Newton o autor do título deste livro. De facto, foi ele quem um dia afirmou:

“Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes”.

Os gigantes a que Newton se referia eram o italiano Galileu Galilei e o alemão Johannes Kepler, que foram contemporâneos um do outro e que pertenceram à geração anterior à de Newton (este nasce no ano em que Galileu morre). Por sua vez, Galileu e Kepler estiveram aos ombros de um outro gigante, um pouco anterior, o monge polaco Nicolau Copérnico, que desafiou a longa tradição geocêntrica ao afirmar que a Terra se movia em torno do Sol.

Quer Galileu quer Kepler, enfrentando uma enorme incompreensão à sua volta, defenderam o sistema de Copérnico. Os dois foram observadores dos céus: Galileu construiu e usou a primeira luneta astronómica, e Kepler, com base em sistemáticas observações dos planetas realizadas a olho nu, formulou as três leis que hoje têm o seu nome, dos movimentos planetários.

Portanto, a obra de Newton nunca teria sido possível sem Copérnico, Galileu e Kepler. O sábio inglês viu mais longe aos ombros dele: encontrou uma mecânica que engloba as descrições anteriores dos movimentos na Terra realizadas por Galileu (a primeira lei de Newton não é mais do que o princípio da inércia de Galileu, segundo o qual os corpos permanecem parados ou em movimento uniforme se não forem actuados por forças exteriores); mais ainda, essa mecânica descrevia tanto os fenómenos da Terra como os do céu (tanto a maçã sobre a cabeça de Newton como a Lua que ele via ao longe!); e, finalmente, com base nas leis de Kepler, Newton alcançou a lei de gravitação universal, segundo a qual todos os corpos, tanto na Terra como nos céus, se atraem uns aos outros, obedecendo a uma fórmula matemática. Para um homem só, ainda que aos ombros de outros três, é obra!

Foi longa a espera – mais de duzentos anos - até surgir um outro gigante que conseguiu subir aos ombros de Newton. O seu nome foi Albert Einstein e celebrámos no ano de 2005, declarado pela Organização das Nações Unidas “Ano Mundial da Física”, o centenário dos seus principais trabalhos. Havia, de facto, alguns problemas com a mecânica de Newton (e dos seus antecessores, a respectiva paternidade deve ser partilhada), nomeadamente a sua compatibilidade com o electromagnetismo, a parte da Física que estuda os fenómenos eléctricos e magnéticos e que tinha, entretanto, sido muito desenvolvida. Einstein, movido pela ideia da unidade conceptual da Física, viu-se obrigado a mudar a antiga mecânica, substituindo-a pela mecânica relativista. Na nova mecânica, nomeadamente na teoria da relatividade restrita, o espaço e o tempo deixavam de ser conceitos absolutos e independentes um do outro, existindo um espaço-tempo para cada observador. Mas Einstein fez essa substituição de um modo subtil: a mecânica antiga continuava, afinal, perfeitamente válida para os fenómenos que decorriam a baixas velocidades, as velocidades a que estamos habituados nas nossas vidas. Por outro lado, ao reparar com algumas dificuldades da teoria newtoniana da gravitação, nomeadamente o facto de a interacção gravítica ter lugar a velocidade infinita, Einstein propôs uma nova teoria da gravitação, a teoria da relatividade geral, uma teoria física muito bela segundo a qual o espaço-tempo se encurvava na vizinhança de uma massa, encurvando-se tanto mais quanto maior for a massa. A força da gravitação era a manifestação visível desse encurvamento geométrico. Mais uma vez, a antiga fórmula da força gravítica de Newton valia no caso em que as massas que encurvavam o espaço-tempo à sua volta eram suficientemente pequenas, mas deixava de valer no caso de estrelas supermassiças. O que era novo não mudava completamente o que era velho, antes o mantinha num limite bem preciso.

E é assim que a física – o empreendimento humano da descoberta do mundo – avança... Uns vêem mais do que os outros, mas, ao fazê-lo, prestam homenagem aos outros, que viram o mundo antes deles, mantendo aquilo que for de manter. A pirâmide dos físicos não está certamente acabada: um dia alguém subirá certamente para os ombros de Einstein e verá mais longe do que ele, acrescentando algo a Einstein sem destruir a parte essencial do que ele propôs. Um dos problemas atacados por Einstein, ao longo de décadas da sua vida, foi a tentativa de unificação da força gravítica com a força electromagnética, nomeadamente procurando dar à força electromagnética uma interpretação geométrica semelhante à do caso gravítico. Esse grande problema da unificação das forças permanece hoje em dia por resolver: ele espera um outro Einstein, que poderá surgir a qualquer altura.

Mas o novo Einstein terá de ter lido este livro. A obra que o leitor tem em mãos – compilado por um astrofísico muito conhecido que trabalha nas fronteiras da moderna física, o inglês Stephen Hawking – reúne os textos fundamentais de todos os autores que foram atrás referidos: de Nicolau Copérnico, o texto de “Sobre as Revoluções dos Corpos Celestes”, de Galileu, os seus “Diálogos sobre os Duas Novas Ciências”, de Kepler, as suas “Harmonias do Mundo”, de Newton os seus “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” e, finalmente, de Einstein o conjunto dos seus artigos mais importantes sobre as suas teorias da relatividade restrita e geral. Hawking escreveu resenhas biográficas daqueles famosos autores. Se a Fundação Gulbenkian já nos tinha dado a tradução do livro de Copérnico, feita a partir do latim original, e a tradução dos textos fundamentais de Einstein, feita a partir do alemão original, não podemos deixar de agradecer à Texto Editores o facto de publicar pela primeira vez em português de Portugal os referidos textos de Galileu, Kepler e Newton. Salvo erro ou omissão é até a primeira vez que Kepler aparece na língua portuguesa, o que se afigura tanto mais interessante quanto Kepler era um admirador confesso dos feitos dos navegadores portugueses, tendo até redigido os seus trabalhos como uma narrativa de avanços e recuos na sua elaboração, tal como os cronistas de bordo faziam para descrever as aventuras marítimas.

Nesta tradução, feita a partir da versão brasileira, mais do que ser absolutamente fiel aos originais procurámos tornar os textos minimamente inteligíveis pelo leitor de hoje que se interesse pelos conteúdos.

Este é um grande livro a todos os títulos. É grande não apenas no tamanho, mas é grande por reunir num só volume as maiores ideias dos maiores génios que a humanidade jamais teve! Este volume condensa aquilo que o homem foi sabendo a respeito do mundo físico à sua volta durante cerca de quinhentos anos. O último meio milénio proporcionou um avanço enorme à Física, um avanço conseguido por gigantes intelectuais. Resta-nos sonhar com o próximo meio milénio: é certo que a pirâmide humana vai continuar a subir...

12 comentários:

  1. Creio ser do conhecimento geral que a expressão latina "nanos gigantium humeris insidentes" é atribuída a Bernard de Chartres, mestre do século XII, e desde então é repetidamente usada para mostrar que o trabalho intelectual nunca parte do zero mas se apoia em grandes pensadores do passado. Pascal utiliza a expressão nos seus Pensamentos, como já o tinham feito, antes dele, outros medievais e modernos. Isaac Newton é mais um elo nesta cadeia, pelo que atribuir-lhe a autoria da frase pode enviesar o entendimento do leitor em datar apenas do genial inglês um princípio interpretativo que é muito anterior e reconhecido.
    Mas, erro de abertura parte, o prefácio é muito
    bom.
    Mendo Castro Henriques

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  2. Descabidas picuinhas, senhor Mendo Castro Henriques: contexto diferente à parte, a frase de Bernar de Chartes não tira a Newton, que a universalizou, a respectiva originalidade, até porque, na concepção de Newton, quem se encarrapita "humeris gigantium", a fim de panoramicamente verem mais longe, mesmo eventualmente sabendo menos, não são os "enani", reais ou metafóricos do monge gaulês, mas outros tantos gigantes, os super-gigantes, que aos ombros de Copérnico, e daí por diante, uns dos outros, nos vão devassando os segtredos do universo. Certo ou errado? Se, aliás, não fosse por Newton, quem hoje falaria dos "enani" de Bernard de Chartes, à nossa dimensão... provavelmente?! JCN

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  3. Caro Mendo Castro Henriques
    A frase aparece numa carta de Isaac Newton a Robert Hooke de 15 Fevereiro de 1676. Tem razão quanto ao facto de o conteúdo da frase ser anterior, nomeadamente remontar ao frade Bernard de Chartres, mas foi Newton que a imortalizou. Não penso pois que haja erro na abertura.
    Cordialmente e agradecendo o seu comentário
    Carlos Fiolhais

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  4. "Os gigantes a que Newton se referia eram o italiano Galileu Galilei e o alemão Johannes Kepler"....é soberbo como o Fiolhais ignora o gigante a quem, muito possivelmente, os próprios Principia se referem no seu título: Descartes. O gigante que o próprio Newton refere na seguinte passagem na carta a Hooke: "What Descartes did was a good step. You have added much several ways, and especially in taking the colours of thin plates into philosophical consideration. If I have seen a little further it is by standing on the shoulders of Giants."

    Mais um texto liceal de Fiolhais.

    "Mas o novo Einstein terá de ter lido este livro". Só se tiver sido em criança. O que não tenho dúvida é que terá lido Descartes....O Einstein leu.

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  5. Curiosamente hoje mesmo li essa referência no livro recentemente publicado pela Gradiva, Big Bang de Simon Singh. Aparece na p. 139. Não sendo inteiramente um livro de história, as referências aparecem com bibliografia justificativa e a referencia está de acordo com a de Carlos Fiolhais.

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  6. Chama-se isto... não poderem ver a camisa lavada a um pobre! JCN

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  7. Será que, por obscuras ou inconfessáveis razões, estes hipercríticos fulanos querem reduzir a anões, equiparando-os, os gigantescos génios da verdadeira ciência desde Copérnico a Einstein, passando por Galileu e Kepler, sem descartar, por especial favor, o tal Descartes?... Até parece! JCN

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  8. Fico feliz por saber que o Descartes, apenas por especial favor de JCN, pode ser considerado um gigante. Um dos gigantes que permitiu Newton ver mais longe. Mais especificamente, poder ver "coisas" a partir da matematização do real, das leis do movimento, do princípio de inércia, da metafísica mecanicista, entre outras coisas menores que apenas tornam possivel a própria física Newtoniana. Um anão, quando comparado com Kepler. Bem haja, JCN, pelo seu especial favor.

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  9. Não tem de quê: um favor... faz-se ao diabo! JCN

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  10. No meu anterior comentário das 19:22 (dia 28), corrijo a dupla gralha "enani" por "nani". JCN

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  11. Fiolhais, SOBERBO...

    É preciso ter paciência som os devotos a Descartes, e aos amantes das picuinhas, ou de um palco fora de hora... Problemas com o gene MAOA, ao que tudo indica...

    E em sua defesa, em defesa de Newton, e outros gigantes, as palavras do não menos gigante: OLIVER SACKS...

    Confiram o link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/110785-fala-memoria.shtml

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  12. Rerum Natura, Uma Luz na Escuridão.

    Parabéns CARLOS FIOLHAIS, pela obra ‘Aos Ombros de Gigantes’; e faço questão de citar em meu primeiro livro, ‘ÊTHOS – Ético Logo Cético’, partes de vosso prefácio, efetivando com orgulho os respectivos créditos.

    Abraços do Brasil.

    Carlos Leger Sherman Palmer

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