sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Crónica da desgraça anunciada

Destaque para a crónica semanal de J.L. Pio Abreu no "Destak":

O orçamento derrapou, sabem porquê? Porque se anunciaram restrições, e não houve director, presidente ou autarca que não desatasse a gastar dinheiro enquanto podia dispor dele. Aumentou o consumo de medicamentos, sabem porquê? Porque se anunciou que eles ficariam mais caros, e não houve doente que não os comprasse enquanto eram mais baratos.

Quando se anuncia a taxação dos dividendos, não há accionista que não os queira enquanto não forem taxados. Se, por uma crise social, se adivinhar que faltará o abastecimento de bens essenciais, começará sem dúvida o açambarcamento, fazendo apressar a falta. Se alguém souber que um país sairá do Euro, as notas vão sair do circuito económico e dirigir-se rapidamente para debaixo dos colchões.

São os nossos Chicos Espertos? É verdade que sim, mas quem os pode condenar quando seguem o exemplo dos mais respeitáveis gestores? O erro, no mundo em que vivemos, é anunciar a desgraça. Tal como na psicologia humana, só o optimismo, mesmo contra as probabilidades, se torna saudável. Os optimistas sabem que a desgraça é possível e que poderão vir a enfrentá-la, mas apostam antes na esperança e até podem ganhar.

Viver a pensar no mal que nos pode acontecer é doentio. Causa infelicidade e apressa o próprio mal. No mundo de hoje também é assim. Mas a sociedade, ou parte dela, ou a sua parte mais visível, está doente. Anuncia o mal, causa infelicidade e abre o caminho para a desgraça.

J.L. Pio Abreu

4 comentários:

  1. «O erro, no mundo em que vivemos, é anunciar a desgraça.»

    Talvez na psicologia isto assim seja, mas não em economia. Em economia o problema não é anunciar a desgraça mas sim não preparar a sua chegada convenientemente.

    Se calhar em psicologia a culpa é do emissor, mas em economia não, a culpa não é do emissor, a culpa é do planeador. Mesmo que sejam um e o mesmo.

    «Tal como na psicologia humana, só o optimismo, mesmo contra as probabilidades, se torna saudável.»

    Talvez na psicologia isto assim seja, mas não em economia. Em economia não há pessimismo nem optimismo, há expectativas. São coisas diferentes.

    Eu explico-lhe. Se um agente económico se habitua a mensageiros falsamente optimistas, adapta a sua «expectativa» e o optimismo do mensageiro passa a valer o mesmíssimo do pessimismo ou do benfiquismo: zero.

    «Os optimistas sabem que a desgraça é possível e que poderão vir a enfrentá-la, mas apostam antes na esperança e até podem ganhar».

    Talvez na psicologia isto assim seja, mas não em economia. Em economia, se o optimista apostar na esperança e nada planear e outro tanto fizer, pode ganhar e pode perder na mesma medida do pessimista ou do benfiquista.

    Em economia, o que marca a diferença não é a abordagem escolhida «à esperança», o que marca a diferença é a preparação que se faça para a chegada dos problemas. Em economia o que aumenta a probabilidade de poder ganhar é ser «precavido» e «pró-activo» na preparação.

    Senhor Pio, se o sucesso económico se medisse em mensageiros optimistas, mesmo que aldrabões, Portugal era uma superpotência económica.

    O que nos faz falta não são «optimistas» nem «pessimistas» nem «benfiquistas» nem sportinguistas» (para não ofender ninguém). O que nos faz falta são «planeadores» e «pensadores» e «executores» económicos.

    Quer um exemplo? É irrelevante o nosso «ismo» face à evolução evidente de uma sociedade de muitos trabalhadores a produzir para poucos reformados, para uma sociedade em que o rácio se inverte. Podemos andar a chorar baba e ranho todos os dias sobre o tema, aos pinotes de alegria ou nesciamente despreocupados. É igual. Isto é macroeconomia. Em macroeconomia a realidade não muda pelo nosso choro ou sorriso. O que definirá a melhor ou pior forma como enfrentaremos essa realidade imutável é a preparação que fizermos agora. Hoje. Na verdade, a que devíamos ter começado a fazer ontem.

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  2. "O erro, no mundo em que vivemos, é anunciar a desgraça."

    Concordo consigo. Os nossos actos, individualmente, ou como Nação, e as suas consequências, resultam das ideias que nos dominam. Com ideias sombrias nunca teremos dias de sol...

    Seria tudo diferente se o jornalismo/televisão/toda a comunicação social não se alimentassem do sensacionalismo e aproveitamento de sentimentos do público-alvo. Mas fazendo isso, não conseguiriam vender. Há aqui um conflito insanável. Como remédio dirigido ao atenuar dos sintomas, não à cura da doença, é haver mais conhecimento/mais instrução, ter cabeças a funcionar... Com povo ignorante não se vai a lado nenhum.

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  3. este raciocinio está errado...só fala em gastar. ora , se se gastou , pagou-se iva ,taxas , e o orçamento não derrapou tanto assim.até se deu uma folga ao orçamento , com tanto consumo antecipado.
    derrapará , oxalá derrape , quando as pessoas começarem a tratar das suas coisinhas sem gastar. reciclando ,poupando , partilhando...se há pessoas que deverão estar mesmo muito preocupadas com a crise são aquelas que vivem dos impostos. os outros nem por isso. sabem fazer. e ele há sempre montes de coisas para fazer. trabalho é coisa que nunca , nunca , faltará.

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  4. Trabalho não falta o que falta é o salário. A Maria é gozona...mas prefere o humor negro.

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