domingo, 10 de dezembro de 2017

"Arte de falar e arte de estar calado"

Informação chegada chegada ao De Rerum Natura.

Apresentação do livro "Arte de falar e arte de estar calado: Augusto de Castro - Jornalismo e Diplomacia", de Clara Serrano, no próximo dia 12 de Dezembro pelas 17h30, no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, em Coimbra.


RESUMO. "Arte de falar e arte de estar calado: Augusto de Castro - Jornalismo e Diplomacia", de Clara Serrano. Nascido em 1883, o jornalista e diplomata Augusto de Castro viria a deparar-se na vida, como o próprio afirmou mais tarde, com “deliciosas ironias”. Nesta obra propõe-se uma viagem pela vida de Augusto de Castro, figura marcante da vida diplomática, política e cultural do século XX português, que acompanhou de perto as principais mudanças vivenciadas pelo país e que privou com alguns dos principais actores políticos, económicos e culturais da cena nacional e internacional do seu tempo. 

Mais informações aqui.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ELOGIO DO ILUMINISMO

Meu texto no último número da revista RUA LARGA:

Em 1784, Immanuel Kant publicou um folheto em que respondia à questão: O que é o Iluminismo? “Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento!” O Iluminismo consiste, portanto, em seguir a voz interior da razão. Kant era um newtoniano que, depois de ter escrito um tratado de mecânica celeste, procurou “a lei moral interior”. O ideal iluminista consistia em seguir sempre a razão, tanto nas coisas da Natureza como nas coisas do homem. E a razão significava conhecimento, mas também liberdade, igualdade e direitos. O Iluminismo triunfou na ciência, ao acelerar um progresso material que dura até hoje, mas, tendo lançado as sementes de progresso moral e social, não assegurou, porém, o seu crescimento ao mesmo ritmo. Cedo se percebeu que, se o método científico era adequado para descrever a Natureza, conduzindo a uma visão racional universalmente aceite, em matérias sociais e humanas esse método de nada servia. Tinha de se avançar de forma lenta e errática.

Em 1784, reinava em Portugal D. Maria I. Quando foi entronizada, em 1777, virava-se uma página da história marcada pela forte ação do Marquês de Pombal, secretário de Estado de, D. José, pai de D. Maria. Costuma associar-se o Marquês ao Iluminismo luso, em virtude da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755 e da reforma da Universidade de Coimbra de 1772, implantando o newtonianismo, para não falar das grandes mudanças económicas e religiosas que empreendeu. O seu conflito com os jesuítas, que teve o auge na sua expulsão do reino em 1759, ilustra bem a disputa pelo poder na época. Mais do que uma questão teológica, estava em jogo a afirmação do Estado e do regalismo, já que os jesuítas tinham um voto de obediência ao Papa. Era a razão de Estado contra a razão da Companhia de Jesus. A moderna historiografia ensina-nos a não ver o passado a preto e branco: nem os jesuítas eram tão maus quanto a implacável propaganda pombalina fazia crer – por exemplo, padres como Inácio Monteiro eram iluministas – nem o Marquês era um modelo de racionalidade. Ele acendia a sua luz, mas, para que ela se visse melhor, apagava a dos outros (o historiador britânico Kenneth Maxwell chamou-lhe o “paradoxo do Iluminismo”). Não desprezando o papel transformador do Marquês, a verdade é que D. João V, o nosso “rei Sol”, já antes tinha feito luz. A construção da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, do Convento de Mafra e a fundação da Academia Real da História Portuguesa foram momentos brilhantes do nosso Iluminismo.

Hoje somos todos descendentes do Iluminismo. Apreciamos o conhecimento e apreciamos também os valores sociais e humanos que esse extraordinário tempo histórico nos legou. Há, além do mais, uma atitude optimista no Iluminismo – resumida no Sapere aude! Ousa saber! –, que continua a ser muito útil nos enevoados dias de hoje. Não nos devemos deixar levar pelos profetas da desgraça, mas antes confiar que, com decisão e coragem, acabaremos por encontrar soluções para os problemas que nos afligem.

O Espaço: do pequeníssimo à imensidão


Na próxima 3ª feira, 12 de Dezembro pelas 18h, realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "O Espaço: do pequeníssimo à imensidão" com João Fernandes, Professor do Departamento de Matemática e Director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra. 

ENTRADA LIVRE 

Público-Alvo: Público em Geral 

Palestra inserida no Ciclo de Palestras de Astronomia e Astrofísica "ASTROTALKS", organizado pela SAC - Secção de Astronomia da Associação Académica da Universidade de Coimbra.

GABINETE DE FÌSICA EXPERIMENTAL DE COIMBRA SABADO 20H NA RTP2




--> --> --> Sábado, 9 de Dezembro às 20h na RTP2 e RTP Play  (com repetição 2ª feira à noite)

Programa da ESECTV. Na próxima edição uma viagem até à Casa Municipal da Cultura de Coimbra, para assistirmos o espectáculo Mariana Pineda, pela Bonifrates, um espectáculo que assinala os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal. CO Meets AD, uma iniciativa da Escola Superior de Educação de Coimbra, que visa cruzar os conhecimentos e competências de diferentes cursos da ESEC. Visitamos a exposição "Pintores poetas, Pintura e Caligrafia na Doação Camilo Pessanha” no Museu Nacional de Machado de Castro. 

E na rubrica Sítios desta semana conversamos com o físico Carlos Fiolhais. Emissão com interpretação em Língua Gestual Por

RECONHECIMENTO MUNDIAL DOS BONECOS DE ESTREMOZ

"O amor é cego" de Ricardo Fonseca

Os "bonecos de Estremoz", os seus nomes e histórias fazem parte das minhas memórias mais antigas. Ainda que à distância, tenho acompanhado a progressiva consolidação e divulgação 
desta arte que foi hoje reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

De entre todos os "bonecos" que conheço o meu preferido é o que a imagem representa. Chama-se "O amor é cego". Esta versão - há muitas -, foi feita por Ricardo Fonseca, o "bonequiro" mais jovem.

Deixo a ligação para o último texto do blogue de Hernâni Matos, a quem se deve um excelente trabalho de recuperação da memória desta expressão cultural que conta já com três séculos de existência: "Bonecos de Estremoz: Proclamados Património Cultural Imaterial da Humanidade".

Mais informação aqui.

Afinal o que somos em matéria de educação escolar: os melhores ou os piores?

Não é só o famoso PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes), da responsabilidade da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), que mede a aprendizagem (traduzida em literacia) dos alunos do ensino básico (mais precisamente, dos alunos de 15 anos de idade que estarão no 9.º ano de escolaridade), nas disciplinas ditas fundamentais ou essenciais. Há outros programas internacionais que também medem a literacia na leitura, matemática e ciências.

No respeitante à literacia na matemática e nas ciências, Portugal participa desde 1995 (ainda que com interrupções) no TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study), da responsabilidade da International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA) e aplicado de quatro em quatro anos a alunos do 4.º ano de escolaridade (aqui).
No respeitante à literacia na leitura, Portugal participa, desde a mesma altura (e também com interrupções), no  PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), da responsabilidade da mesma IEA e aplicado de cinco em cinco anos a alunos do mesmo patamar de escolaridade (aqui).

Foram divulgados nesta semana os resultados obtidos na última passagem do PIRLS, que teve lugar em 2016 e na qual participou meia centena de países. Ficámos a saber que o nosso país desceu a pique na fluência e compreensão de leitura. Estamos na trigésima posição.

O que se passou, então, se ainda há pouco tempo o PISA mostrava uma franca subida das três literacias?

Os jornais perguntaram isto mesmo a quem tem e já teve responsabilidades políticas, a representantes de várias entidades integrantes do sistema educativo, a académicos. Obtiveram-se as habituais trocas de culpas e tentativas de explicação: desvalorização, por parte dos alunos, dos testes que não contam para classificação; inconstância na obrigatoriedade de exames nacionais; mudanças frequentes no currículo e incongruências nos documentos que o compõem; extensão dos conteúdos disciplinares; falta de preparação dos professores ou preparação inadequada; metodologias tradicionais e ineficazes, etc. Em sequência, declara-se a não menos habitual necessidade de mudança, que, bem vistas as coisas, será tudo.

Devo dizer que a opinião mais prudente que vi foi dada pelo presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamento e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima (citado por Clara Viana): temos de nos orientar nesta situação “bipolar que ora nos faz dizer que somos os melhores do mundo para logo de seguida nos apresentarmos como os piores”.

Informação recolhida sobretudo nos seguintes artigos online:
- Avaliação internacional mostra que alunos do 4.º ano estão pior na leitura, de Clara Viana (Público de 5 de Novembro)
- Maus resultados nas competências de leitura no 4.º ano: a culpa é dos currículos ou dos professores? de Clara Viana (Público de 6 de Novembro)
- 4.º ano. Alunos portugueses foram os que mais pioraram resultados na leitura em cinco anos na Europa, de Marlene Carriço (Observador, de 5 de Dezembro)

- PIRLS 2016 - Évaluation internationale des élèves de CM1 en compréhension de l'écrit - Évolution des performances sur quinze ans, de Marc Colmant, Marion Le Cam

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Esclarecimento de Guilherme Valente


Altero a interpretação e esclareço o erro de citação de memória que fiz de uma leitura de Agosto da afirmação acima de Alexandra Lucas Coelho (ALC) numa entrevista ao DN (DN de 18/8/17 e meu artigo no Público de 30/11/17, no link acima).

 Lamento ter optado por concluir que, ao afirmar que Portugal não é "branco, nem em primeiro lugar dos brancos", ALC estivesse a incorrer num enorme disparate, como pressupus e sugeri no meu artigo. Disparate em que teria incorrido de facto se com o "nem em primeiro lugar dos brancos" tivesse querido dizer que Portugal é "em primeiro lugar" de um outro grupo humano, qualquer que ele fosse.

 O que eu devia ter optado por pressupor com boa vontade e júbilo é que ALC estava a defender o óbvio que também eu quis acentuar no meu artigo: Portugal é de todos os portugueses e não "em primeiro lugar", ou em segundo, ou em terceiro, ou em qualquer outro lugar de nenhum qualquer grupo humano.

 O que posso legitimamente pensar - e pretendi mostrar no meu artigo com o exemplo pouco feliz que lamento - é que, no registo delicado em causa, afirmações de algum modo do teor da que ALC fez me parecem poder induzir equívocos e suscitar sentimentos muito indesejáveis.

 Peço desculpa a ALC e a quem me leu pelo erro de citação que cometi.

 Guilherme Valente

PS) A citação foi retirada do post.

DÉFICE NA EDUCAÇÃO

No passado dia 3, o Primeiro Ministro, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco:
“De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Dito, creio que, de improviso, o que está no pensamento de António Costa, veio ao encontro do que ando a dizer há muitos anos.

Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior, em todas as áreas do conhecimento, está ao nível do que caracteriza os países mais avançados, é confrangedor assistir à generalizada iliteracia dos portugueses, incluindo muitos dos nossos quadros superiores, intelectuais de serviço e políticos de profissão que, embora conhecedores dos domínios em que se movimentam, são falhos de outras culturas, em particular da científica, que a escola deveria dar mas não deu, como está implícito nas palavras do Primeiro Ministro.

Sou levado a pensar, e não estou só nesta ideia, que grande parte da situação vinda agora, bem ao de cima nas ditas palavras, radica, desde há muito e em grande parte, na “máquina” do Ministério da Educação. Os ministros e secretários de estado, uns com ideias, outros sem elas, têm-se seguido ao sabor das legislaturas e das remodelações. Foram entrando, ignorando muitas das disposições dos que os antecederam, criando outras e desaparecendo de cena, dando lugar a novos outros, em repetição deste desgraçado ciclo. Mas a “máquina”, essa, praticamente, não muda e é essa, quanto a mim uma das responsáveis pelo défice agora denunciado por António Costa.

Outra parte da responsabilidade desta triste e lamentável situação cabe aos sucessivos chefes de governo que, mais preocupados com outros sectores da administração, dividendos políticos e outras aberrações dos aparelhos partidários instalados, têm descurado este gravíssimo problema, dito agora nas suas palavras como primeiro ministro:
“défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e é preciso vontade política para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta máquina ministerial despida de constrangimentos mais partidários do que políticos.

É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos respectivos titulares, como nas dotações orçamentas que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho e de relativa autonomia e, aos professores, a dignidade compatível com o importantíssimo papel que representam na sociedade, a começar nos respectivos vencimentos.

É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si um conjunto de bons professores e outros profissionais capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino básico e secundário, a começar na conveniente e eficaz formação de professores, reformulação de programas passando pelos livros e outros manuais adoptados (que envolvem interesses instalados) com discursos estereotipados que se repetem acriticamente em obediência a esses programas, levando ou, melhor, obrigando os professores, não a ensinar e formar cidadãos, mas a “amestrar” alunos a acertar nos questionários de exames, por vezes, autênticas charadas.

Sempre disse e insisto em dizer que o professor deve saber muito, mas muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que deve ter por missão ensinar. Não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, insisto em dizer, estereotipadas e acríticas dos manuais de ensino.

Esse muito mais está na abrangência dos seus conhecimentos, não necessariamente especializados ou de ponta (indispensáveis no ensino superior), mas ao nível de uma sólida cultura científica e humanística. E isso vem de trás, da formação cívica que adquiriu, do modo como passou pela universidade e do proveito que tirou desse privilégio, numa sociedade plena de desigualdades como tem sido a nossa.

Mas esses conhecimentos, todos sabemos, estão ao seu alcance nas hoje muito boas bibliotecas das escolas e, agora mais do que nunca, na inesgotável, imediata e acessível via “on line”.
Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que os professores não têm. Há que libertá-los de, praticamente, todas as tarefas que não sejam as de ensinar. Há que resolver o problema das suas colocações, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias.

Se nada disto for iniciado por este governo, as palavras de António Costa que, estou certo, terão todo o apoio dos PCP; BE e PEV, não passarão disso mesmo.

O sistema social e político dominante na sociedade capitalista que domina na União Europeia, continua a promover e alargar o fosso entre os que estudam, e assim aspiram e conquistam o direito à cidadania, e os outros.

Transmitir esta mensagem aos jovens é um dever moral e cívico dos professores, essencial na luta contra o insucesso escolar e pelo direito a uma condição humana de maior dignidade. Não é fácil, mas não é impossível esta tarefa. Há que saber ganhar a confiança dos alunos e, também, o seu afecto. Feliz do estudante que goste da convivência com o seu professor.

Essa relação é decisiva na sua atitude face à escola e ao gosto de aprender. Duplamente feliz se o professor estiver à altura do seu papel que, para além de educacional, é, sobretudo, social.

A. Galopim de Carvalho

ANTROPOLOGIA FORENSE E INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

Na próxima 4ª feira, dia 13 de Dezembro, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra 

"Antropologia forense e investigação criminal"

por Eugénia Cunha

investigadora do Laboratório de Antropologia Forense, Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, professora do Departamento Ciências Vida da Universidade de Coimbra. Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.


Resumo da palestra: "Na investigação forense a interdisciplinaridade é fundamental. A informação extraída pela antropologia forense dum fragmento ósseo, duma porção corporal, dum corpo em adiantado estado de decomposição, esqueletizado ou cremado pode ser crucial para guiar a investigação criminal e levar quer à identificação da vítima, quer ao esclarecimento do que ocorreu na altura da morte. A partir de vários casos forenses reais de antropologia forense, são explanados os alcances, os limites e os desenvolvimentos recentes da Antropologia Forense. São também abordados os cenários de identificação em cenários de exceção como é o caso dos crimes contra a humanidade e dos desastres de massa, nomeadamente os ataques terroristas. A identificação a partir de fragmentos é discutida assim como a documentação da violação e direitos humanos a partir dos ossos."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

“LISBOA É PORTUGAL”


Meu artigo de opinião no Público de hoje:

Na capítulo sexto de Os Maias, Eça de Queirós coloca Ega a dizer: «– Lisboa é Portugal – gritou o outro. – Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...» (Arcada refere-se ao Terreiro do Paço). Não sei se é por isso que se diz hoje que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Numa outra obra, A Ilustre Casa de Ramires, Eça, nascido na Póvoa do Varzim e que estudou no Porto e em Coimbra, acrescentou: “Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda possuída por uma parceria (…) Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar… e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a ‘parceria’ que recebem e que governam.”

Lembrei-me do Eça a propósito da actual polémica acerca da transferência do Infarmed de Lisboa para o Porto. Esclareço desde já a minha posição, eu que sou que de Lisboa e que vivo há muitos anos em Coimbra (o meu pai, que trabalhava para o Estado, foi transferido para Coimbra): acho muito bem que o Infarmed vá para o Porto. Em primeiro lugar, um dos grandes problemas nacionais é o desequilíbrio da ocupação do território, que não deve ser visto apenas como a gritante dicotomia entre o interior e o litoral (Portugal, do ponto de vista demográfico, é um plano inclinado para o mar!), mas também como a não menos gritante concentração de recursos financeiros públicos na Grande Lisboa, onde está não só todo o governo como praticamente todos os organismos estatais (os recursos privados seguem os públicos). O Índice de Desenvolvimento Regional do Instituto Regional de Estatística mostra bem a posição destacada da Região Metropolitana de Lisboa face a todas as regiões do país, incluindo o Porto. Os trágicos incêndios deste ano deveriam fazer-nos reflectir sobre a necessidade de tornar o território nacional mais equilibrado. Mas receio que Lisboa (isto é, a “parceria” que governa) não tenha interiorizado isso. Lembro um compromisso ainda não cumprido pelo XXI governo constitucional: a “prioridade política da descentralização tendo em vista a coesão territorial e a diversificação dos pólos de desenvolvimento” e a “maior equidade nas oportunidades de valorização do país através da desconcentração de entidades e serviços”. Tem de ser mais do que uma pia intenção.

Em segundo lugar, se a candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento teve boa recepção internacional, por que razão a Cidade Invicta não poderá albergar, precisamente num dos locais referenciados, a agência portuguesa correspondente? Recordo que o Porto ficou em 7.º lugar entre 18 concorrentes de toda a União Europeia, tendo sido particularmente prejudicado por Portugal já possuir duas agências europeias, curiosamente as duas em Lisboa, muito perto da Arcada e de S. Bento. Uma terceira agência na mesma capital seria algo nunca visto na Europa, descontado o caso especial de Bruxelas.

 Para ver quão estapafúrdia era a intenção inicial de alguns lisboetas de candidatar Lisboa, basta reparar que as agências europeias sedeadas em Espanha, estão em Barcelona, Bilbau, Vigo, Alicante e Torrejon (arredores de Madrid). E, em França, se é certo que duas estão em Paris, outras duas estão bem longe da torre Eiffel. Existem no Porto infraestruturas de categoria internacional e um cluster na área da saúde assaz relevante. É, portanto, um bom sítio para começar o processo de descentralização, agora com o Infarmed, que é preciso continuar: mude-se, por exemplo, o Tribunal Constitucional para Coimbra e a empresa estatal Lazer e Floresta para Pedrógão Grande. Os trabalhadores do Infarmed não querem sair de Lisboa por estarem na atitude um pouco saloia de só quererem trabalhar no quintal que conhecem? Pois que sejam atendidos os seus direitos, mas há muita gente altamente qualificada que está prontinha a ser contratada para o Porto. Ouvi dizer que os laboratórios de Lisboa não podem ser deslocalizados, mas não se trata de mudar a torre de Belém: é relativamente fácil fazer a mudança de  laboratórios de química.


É natural que a descentralização tenha inimigos. Mas o governo perderá credibilidade se for um deles e voltar atrás na decisão tomada. O Eça daria uma volta na campa…

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ANIVERSÁRIO DO RÓMULO EM COIMBRA


O RÓMULO - CCVUC FAZ NOVE ANOS!
Para comemorar a efeméride, teremos “COMO VEJO O MUNDO DE HOJE”, com ADRIANO MOREIRA.
4ª feira | 6 Dezembro 15 | 17h30 – 19h30

O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra abriu as suas portas no dia de 24 de Novembro de 2008, dia de aniversário do professor e poeta Rómulo de Carvalho e Dia Nacional da Cultura Científica, no edifício do Departamento de Física daquela Universidade. No passado dia 24 de Novembro comemorou, portanto, os nove anos de funcionamento como centro de recursos para a aprendizagem das ciências e a difusão da cultura científica na sociedade. Dos cerca de 3000 títulos iniciais, passou para mais de 25000 hoje, dos quais 17000 estão catalogados, para além de uma notável colecção de livros, revistas, CD e DVD sobre temas de ciência. O RÓMULO, que integra a rede de centros Ciência Viva espalhados pelo país, tem sido palco de inúmeras actividades de cultura científica e por ele têm passado grandes figuras nacionais.  
No próximo dia 6 de Dezembro, pelas 18h00, terá lugar a sessão de aniversário, que se centrará numa conversa sobre “Como vejo o mundo hoje”, com Adriano Moreira.  Será moderador Carlos Fiolhais, director do RÓMULO. A sessão é aberta ao público em geral.
Antes, pelas 15h00, contamos com a representação de “História breve da lua”, de António Gedeão, por um grupo de alunos da Escola Secundária com 3º ciclo de D. Dinis, Coimbra, às 16h00, será inaugurada uma exposição intitulada “Gigantes da Ciência” e, pelas 17h00, um lanche (com magusto).
Para mais informações:

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                   Maria Manuela Serra e Silva
                   Telefone – 239 410 699
                   E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                   Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

                   Página: https://www.uc.pt/iii/romuloccv

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OPORTUNIDADES DE LIVROS NA GRADIVA


Aniversário do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

No próximo dia 5 de Dezembro, o Museu da Ciência comemora onze anos:

http://www.museudaciencia.org/index.php?module=events&option=&action=&id=818

Para assinalar esta data haverá diversas actividades durante o dia, entre as quais  se destaca a inauguração da exposição VENHO DE LONGE - AVES MIGRATÓRIAS: http://www.museudaciencia.org/index.php?module=events&option=exhibitions&action=&id=819

 O programa da sessão é o seguinte: 12H00: sessão de boas vindas com a presença do Reitor da Universidade de Coimbra (Laboratorio Chimico)

A QUÍMICA DO AMOR NO RÓMULO

DIÁSPORA CIENTÍFICA PORTUGUESA: DEBATE EM LISBOA

Ciência e Religião: meu diálogo com Frei Bento Domingues em Viseu

http://rr.sapo.pt/noticia/99849/frei-bento-domingues-e-carlos-fiolhais-religiao-versus-ciencia

XXXI Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fósseis: MINERAIS DE LÍTIO

Informação chegada ao De Rerum Natura.


O Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa) organiza, de 7 a 10 de dezembro, a XXXI Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fósseis, subordinada ao tema "MINERAIS DE LÍTIO".

Este evento, que constitui desde 1988, uma grande festa do MUHNAC-ULisboa e uma marca na vida cultural da cidade, reúne colecionadores e comerciantes de minerais, gemas e fósseis, oriundos de vários países da Europa, bem como um vasto público, representado por milhares de visitantes, que tem aqui uma oportunidade ímpar de adquirir ou simplesmente deleitar-se com a observação de exemplares únicos.

Paralelamente à Feira, terá lugar um programa complementar de conferências e atividades
de divulgação cultural e científica, destinada a jovens e adultos.

Horário
7 de dezembro - das 13h00 às 20h00
8 e 9 de dezembro - 10h00 às 20h00
10 de dezembro - 10h00 às 18h00

ENTRADA LIVRE

Mais informações em www.museus.ulisboa.pt

domingo, 3 de dezembro de 2017

O exílio de António Aniceto Monteiro

Texto recebido do leitor Jorge Rezende.

António Aniceto Monteiro (1907-1980) foi a mais importante figura da década prodigiosa da matemática portuguesa dos anos 30 e 40 do século passado. Foi o primeiro secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Matemática e talvez o principal impulsionador da sua fundação. Exilou-se no Brasil no princípio de 1945.

Uma carta da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), datada de 7 de Outubro de 1976, assinada por vários professores encabeçados por Alfredo Pereira Gomes, que provavelmente a escreveu, e dirigida ao Secretário de Estado da Investigação Científica, dizia explicitamente:
«O Professor António Aniceto Monteiro após o seu Doutoramento em Paris, como bolseiro do Instituto de Alta Cultura [IAC], foi nomeado, em Julho de 1936, investigador deste Instituto tendo sido em Outubro do mesmo ano demitido pela honrosa razão de não assinar a declaração do conhecido decreto n.º 27.003 [«Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas»] ficando em consequência impossibilitado de prosseguir uma carreira docente universitária o que havia de o conduzir ao exílio anos mais tarde.» (aqui)
Já em 31 de Outubro de 1945, Manuel Valadares (físico, que veio a ser professor catedrático da FCUL), em carta publicada no jornal «República», referia:
«Regressado ao País e mau grado o valor dos trabalhos que realizara no estrangeiro, [Monteiro] não encontrou lugar no corpo docente de nenhuma das três Faculdades de Ciências do País. Passou então a viver com uma modestíssima bolsa que o IAC lhe concedeu; passados alguns meses, exigiram-lhe, para poder continuar a ser bolseiro, a assinatura de um compromisso politico — que pessoa alguma lhe havia imposto ao enviá-lo para o estrangeiro. Tendo-se recusado a assinar um compromisso que repugnava a sua consciência, deixou de ser bolseiro, e a sua vida e a dos seus decorreu, de aí em diante, em condições de dificuldade económica que, por vezes, roçaram pela miséria.» (aqui)
Tanto Pereira Gomes como Valadares sabiam do que falavam. Ambos eram amigos íntimos de Monteiro, companheiros de lutas e de exílios. O primeiro fez o doutoramento sob a sua orientação e o segundo foi bolseiro em Paris na mesma altura em que Monteiro lá esteve e era seu compadre, padrinho do filho mais novo. Estas cartas confirmam e explicitam aquilo que Monteiro disse, já no exílio, numa entrevista ao jornal brasileiro «Correio da Manhã» de 10 de Novembro de 1945: «Simplesmente, recusei assinar um papel de compromisso político para poder leccionar… matemática. Por isso não me nomearam; nem modesto funcionário podia ser lá [em Portugal]. Teria que morrer à fome, com os meus, doutorado pela Sorbonne. O próprio IAC me avisou, em Outubro de 1941, de que era preferível sair do país.» (aqui)
A partir de finais de 1936, Monteiro viveu ainda com pequenos rendimentos tais como um subsídio pago pelo IAC (cujo presidente era Celestino da Costa) como colaborador no serviço de inventariação da bibliografia científica existente em Portugal. Mas no final de 1941 ou princípio de 1942 o Ministro da Educação Nacional, Mário de Figueiredo, demitiu Celestino da Costa e em Dezembro de 1942 «dispensou» os serviços de Monteiro, isto é, despediu-o.

António Aniceto Monteiro exilou-se pois no Brasil em 1945 porque estava desempregado, não tinha meios de subsistência em Portugal, por se recusar a assinar a tal declaração de submissão ao regime político salazarista. A principal razão que me leva a escrever este artigo é o facto de ter lido na Wikipedia, a propósito de António Aniceto Monteiro, que
«Existem duas interpretações dos motivos que o terão levado a abandonar Portugal. Uma primeira interpretação refere motivos políticos, que ele foi impedido de ter uma carreira universitária em Portugal, pois recusou-se a assinar um documento onde declarava o apoio ao salazarismo e o repúdio ao comunismo e às «ideias subversivas». Uma outra interpretação é a de que o próprio António Aniceto Monteiro deixou escrito de forma clara que abandonou o país, não por motivos ou perseguições políticas mas, por estar saturado das obstruções dos seus pares académicos.» (aqui)
Para esta segunda «interpretação», a Wikipedia remete o leitor para o livro de Jorge Buescu «Matemática em Portugal, Uma Questão de Educação» (aqui). De facto, foi este autor que imaginou tal «interpretação» (aqui). Segundo ele, as razões que levaram Monteiro ao exílio estão num artigo do n.º 10 da «Gazeta de Matemática», de Abril de 1942, páginas 25-26, «Origem e objectivo desta Secção [MOVIMENTO MATEMÁTICO]» (aqui), que está reproduzido no Anexo.

É aqui que, segundo a Wikipedia, Monteiro «deixou escrito de forma clara» os motivos do seu exílio. O leitor procure na rede este artigo de Monteiro («Origem e objectivo desta Secção [MOVIMENTO MATEMÁTICO]») (aqui), ou leia-o no Anexo, e verifique se aí está explicado que foi por estar «saturado da obstrução dos co­legas» que ele «decide abandonar o País em 1943 (aqui), acabando por partir pa­ra o Brasil em 1945» (aqui), conforme afirma Jorge Buescu no seu livro. A verdade é que não está – não há no texto de Monteiro qualquer referência a uma intenção de se exilar.

É certo que eu já abordei este assunto nos meus artigos «Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo» (Revista «Vértice», 166) (aqui) e «António Aniceto Monteiro – lutas, perseguições e exílios» («Boletim» da Sociedade Portuguesa de Matemática, 74). Mas também é verdade que continuam a alastrar na rede citações da referida «interpretação», devido à projecção mediática do seu autor. É, por exemplo, o caso da versão inglesa da entrada sobre António Aniceto Monteiro na Wikipedia.

Este falseamento da História é tanto mais estranho quanto o seu autor tem escrito vários artigos de opinião (nomeadamente, no jornal «Público») onde tem proclamado ser um acérrimo defensor «do conhecimento, do rigor e da exigência» (aqui). Pois em nome do conhecimento, do rigor e da exigência já é mais do que tempo de ser reparado este mal que foi feito.
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ANEXO: Origem e objectivo desta Secção 
Pensou-se há algum tempo em publicar um jornal — que teria por título Movimento Matemático — des­tinado a lançar uma campanha para uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e a fazer a pro­paganda das principais correntes do movimento ma­temático moderno.
Parece-me evidente a necessidade de publicar um tal jornal precisamente porque o nosso país anda longe das correntes vitais do pensamento matemá­tico moderno e porque o nosso ensino das ciências matemáticas necessita de uma remodelação completa: remodelação dos programas de estudo, da organiza­ção da licenciatura em Ciências Matemáticas, da pre­paração dos professores do ensino secundário, das provas de doutoramento e dos métodos de recrutamento do pessoal docente universitário.
É indiscutível que assistimos hoje no nosso país a uma verdadeira efervescência de actividade no campo das ciências matemáticas. Demonstram esta afirma­ção o aparecimento sucessivo no curto prazo de cinco anos de 1.º) Portugaliae Mathematica, fundada em 1937; 2.º) Seminário Matemático de Lisboa (1938) que toma em Novembro de 1939 o nome de Seminá­rio de Análise Geral; 3.º) Centro de Estudos de Ma­temáticas Aplicadas à Economia, fundado pelo 1.º Grupo do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (1938); 4.º) Gazeta de Matemática, Ja­neiro de 1939; 5.º) Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, fundado pelo Instituto para a Alta Cul­tura em Fevereiro de 1940; 6.º) Sociedade Portu­guesa de Matemática, Dezembro de 1940; 7.º) Centro de Estudos Matemáticos do Porto, fundado pelo Instituto para a Alta Cultura em Fevereiro de 1942.
Anuncia-se para breve a publicação do Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, das Publica­ções da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências do Porto e de uma colecção de Estudos de Matemática; projecta-se a criação de um Estúdio de Matemática em Lisboa.
Todas estas organizações e publicações trabalham por um ressurgimento da cultura matemática portuguesa!
Se tudo isto é muito animador e nos permite ter esperanças num triunfo mais ou menos próximo, não devemos ter ilusões de espécie alguma sobre as dificuldades que nos esperam!
Há que contar — isto é de todos os tempos! daqueles — com um recrudescimento da hostilidade da ignorância e da má fé; da hostilidade daqueles para quem a estagnação ou a decadência da nossa cultura matemá­tica é a condição necessária para a realização de objectivos que nada têm que ver com as ciências matemáticas, daqueles que tremem perante a ideia da existência de uma juventude estudiosa consagrando inteiramente a sua vida e o seu entusiasmo a uma causa pela qual eles nunca lutaram — porque o es­forço e a diligência no estudo revelam de uma ma­neira evidente os erros do passado e as deficiências do presente —, da má-fé que apregoam um interesse e um entusiasmo pelo desenvolvimento da cultura matemática que são desmentidos categoricamente pela sua actuação presente, da má-fé daqueles que consideram como revelações de inteligência e de capacidade a adoração da rotina que o uso consa­grou e de que eles são por vezes os mais legítimos representantes; há que contar ainda com a ignorância (e que enciclopédica ignorância!) daqueles que afirmam que o nosso país está perfeitissimamente ao corrente do movimento matemático moderno, que o nível dos nossos estudos matemáticos se pode por a par do dos países mais avançados, e finalmente há que contar com a indiferença (que estranha e có­moda indiferença!) daqueles que dizem que no nosso país não há nada a fazer, que os portugueses são in­capazes de realizar um esforço persistente e conti­nuado e que portanto são incapazes de contribuir para o progresso das ciências matemáticas!
Pensamos que o aparecimento destas manifesta­ções deve servir apenas para nos indicar que se­guimos pelo bom caminho — porque a cada tarefa realizada a reacção deve aumentar — e que nunca devemos desviar a nossa atenção do trabalho me­tódico e persistente para controvérsias de carácter duvidoso.
É precisamente pelo estudo, pelo trabalho de in­vestigação e pela propaganda das matemáticas, que se pode preparar o ressurgimento dos estudos matemáticos em Portugal, mas importa evidentemente orientar a nossa actuação pelas lições que nos são dadas pela nossa experiência e pela experiência das outras nações. Há que definir um rumo, e segui-lo enquanto a experiência mostrar que estamos no bom caminho!
O desenvolvimento rápido da Gazeta de Matemática — em particular a partir do início do presente ano lectivo — tornou possível o alargamento imediato da sua acção cultural e daí nasceu a ideia — para evitar uma dispersão de esforços que o momento actual não permite — de criar na Gazeta uma secção em que se desenvolveria a pouco e pouco o plano de acção que se pretendia realizar no Movimento Mate­mático. É esta a origem desta secção que se iniciou no n.º 9 da Gazeta.
Infelizmente a situação actual da Gazeta não per­mite ainda dar a esta secção todo o desenvolvimento que era necessário. Por isso temos que nos limitar a assinalar aos leitores deste número as realizações e iniciativas de valor cultural sob o ponto de vista matemático de que temos conhecimento. Esperamos que em breve seja possível, por meio da colaboração efectiva de todas as pessoas interessadas no desenvolvimento da cultura matemática, lançar uma cam­panha para uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e fazer a propaganda das principais cor­rentes do movimento matemático moderno.
António Monteiro

sábado, 2 de dezembro de 2017

DESILUDA-SE A DIREITA, ESTE GOVERNO ESTÁ PARA DURAR


Já vai algum tempo que não me meto na política nacional.

Sempre que o faço, sujeito-me a comentários discordante dos dois lados do leque partidário , o que é respeitável e bom, revelado de uma liberdade, apreciada, sobretudo, pela minha geração, que sentiu na carne falta dela. Devo dizer que, pura e simplesmente, bloqueei os autores dos comentários desrespeitadores da boa educação.

Eis, pois, o que hoje me ocorre dizer sobre a situação política nacional., depois de uma madrugada a preparar os textos que coloquei nesta minha página do FB.
“Como nos aviões que, ao ganharem altitude, atravessam a espessa cobertura de nuvens e atingem o esplendor do céu e da luz, acabámos de sair desta escuridão em que, com excepção de uns tantos privilegiados, fomos levados a viver.”

Escrevi, em finais de 2015, quando, caiu o governo de Passos Coelho, conduzido sem qualquer sensibilidade social, em submissão a uma União Europeia cada vez mais afastada dos princípios que a fundaram, e sob a conivência do então mais alto magistrado da Nação. Escrevi, ainda que “tenho esperança que o governo agora presidido por António Costa vingue e desminta os maus presságios que uns, hábil e interesseiramente, e outros, convicta, alienada e ingenuamente, anunciam.

Respirámos de alívio com o fim de uma governação de má memória que conduziu os nossos destinos entre 2011 e 2015, nos asfixiou e empobreceu, destruindo muitas das nossas valências económicas, a par de escândalos de corrupção descarada e impune e do aumento do número e da riqueza dos ricos. De então para cá assistimos ao ressurgimento da economia e à redução do flagelo de desemprego e ao estancar da emigração de uma juventude que a democratização do ensino qualificou a níveis nunca antes conseguidos.

Alienados pela máquina do poder e ainda marcados por receios antigos, foram muitos os portugueses que não ousam questionar um governo que lhes mentiu, os desprezou e maltratou. Porém, os legítimos representantes da maioria dos portugueses puseram fim a um pesadelo de quatro longos anos. Vitoriosa nas urnas mas sem maioria para governar, esta direita viu o seu programa reprovado no Parlamento,

António Costa e os partidos à sua esquerda que, não obstante as grandes e respeitáveis divergências ideológicas, continuam a dar-lhe o inteligente e sábio apoio, têm sabido manter compostura democrática face aos ataques soezes que não cessaram de lhe serem dirigidos. António Costa, o PCP, o BE e o PEV sabem bem que a direita não perdoa e que, ajudada pela forças que bem conhecem cá dentro e lá fora, têm tentado e vão continuar a tentar o possível e o impossível para derrubar o governo e minar os entendimentos conseguidos.

Foi, por exemplo, no ano passado, a onda amarela, por ocasião do anúncio dos cortes de financiamento aos colégios privados, Foi, este ano, a vergonhosa, consertada e descarada oposição ao governo e ao primeiro ministro face ao drama e à tragédia dos fogos florestais, cujo número, intensidade e extensão permitiram, a muitos, suspeitarem terem sido o resultado de uma acção organizada. Foi o “roubo” de material de guerra em Tancos e o imediato aproveitamento político por parte da oposição. Foram as análises e recomendações (as “palavras duras”, como alguns se lhes referiram) do Presidente da República, quanto a mim necessárias e certeiros, que a direita aproveitou, fazendo dele um aliado, na luta política que a democracia, felizmente, consente. Mas enganou-se. Marcelo tem outros objectivos que não são difíceis de adivinhar e que eu, quase diria, outras certezas. Foi o caso da Legionella pneumophila e das mesmas vozes que logo se fizeram ouvir. Só falta acusarem o ministro Luis Capoulas Santos pela seca extrema que está a afectar gravemente a nossas agricultura e pecuária, e a Ministra Ana Paula Vitorino, pelo mau estado do barco que naufragou ao largo da Figueira da Foz e pela morte de quatro malogrados pescadores.

Todos sabemos que os tempos que se avizinham continuarão a ser difíceis mas, comprovadamente melhores do que os vividos entre 2011 e 2015. Não queremos voltar para trás. Estamos a viver com menos dificuldades e esperança de melhores dias, com um governo que nos respeita e nos tem vindo a restituir a dignidade.
A. Galopim de Carvalho